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Romance de Formação

SOBRE ROMANCE DE FORMAÇÃO
por Ilana Feldman

Assisto à “Romance de Formação (Bildungsroman)”, da Julia De Simone, há um só tempo fascinada pela beleza e pelo rigor dos enquadramentos – pelos modos como o filme se aproxima dos personagens e com eles co-encena – e absolutamente intrigada com a trajetória desses jovens e com o lugar que esse filme ocupa numa certa história do cinema e da sociedade brasileira. No campo da ficção, a última década tem sido pautada por personagem afirmativos, bem-sucedidos, pela celebração da potência do indivíduo, do corpo e da amizade. Uma pauta, não dá para negar, com todas as diferenças de propostas, em sintonia com a era Lula, com as políticas afirmativas e com o pragmatismo. Nesse panorama, ao documentário cabia dar a ver projetos fracassados, trajetórias abortadas, sonhos extraviados, perdas irreparáveis e vidas estagnadas. São inúmeros os filmes atravessados pela ausência, pelo luto e pelo fracasso (seja do próprio filme, dos personagens ou do movimento da história). Mas “Romance de formação”, ao se deter nos processos de formação, inegavelmente bem-sucedidos, de jovens de classe média e classe média alta (o que é mais do bem-vindo, dada a lacuna histórica do documentário), parece indicar uma mudança – que não deixa de causar estranhamento. Talvez porque, na ausência de antagonismos decisivos, essas as trajetórias de sucesso pareçam desprovidas de espessura dramatúrgica, como se tudo estivesse dado desde o início e o processo de acompanhamento não fosse exatamente um processo, mas uma confirmação. De certo modo, se voltarmos ao conceito que justifica o título do filme, Bildungsroman, o filme está também justificado, pois o Bildungsroman trata, resumidamente, do “processo de aperfeiçoamento do indivíduo burguês em direção a um grau determinado de perfectibilidade” (originalmente nas circunstâncias do processo histórico da Alemanha nas últimas décadas do séc. XVIII).

Talvez todas essas palavras sejam apenas para eu tentar entender a minha fascinação e o meu desconforto. Talvez porque o sucesso (mesmo que relativo) seja tão aprisionante, enquanto poder fracassar significa se abrir ao erro, ao desconhecimento, ao não-entendimento – ou mesmo à liberdade de quem diz, como Bartlelby, o escrivão, “preferiria não”.

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